Críticas

Valor Sentimental (2025)

Direção: Joachim Trier

Valor Sentimental (2025)
Existem filmes que se contentam em alinhar acontecimentos, como quem narra, sem convicção, o que viu pela janela. Existem outros que nos apresentam figuras humanas, mais nomes do que almas, é verdade, e dão por encerrada a tarefa. E há, por fim, aqueles que, sem pedir licença, parecem respirar por conta própria: respiram as imperfeições que nos constituem, as hesitações que nos paralisam, as dores que preferimos calar, os afetos que guardamos por prudência e as memórias que, caprichosas, se recusam a morrer. Sentimental Value, de Joachim Trier, pertence a esta última estirpe, rara e algo inconveniente, porque nos obriga a reconhecer, no escuro da sala, certos traços que julgávamos só nossos. É um cinema que se aproxima de nós não pelo enredo, mas pelo reconhecimento íntimo da existência. Um cinema feito de detalhes, de silêncios, de olhares, de rachaduras emocionais. Um cinema que não explica: revela. O primeiro ato do filme já anuncia essa sensibilidade ao mostrar Nora e Gustav, pai e filha, tentando um reencontro após anos de afastamento. Antes mesmo de qualquer palavra, a mise-en-scène sintetiza o abismo emocional entre eles. Nora surge através das grades da porta do restaurante, uma imagem poderosa que a coloca como alguém presa a memórias que não se dissolvem. Na conversa, a filha e o pai são enquadrados paralelamente, separados pela grande janela engradada que ocupa o centro do plano: uma divisão física e simbólica que evidencia a fratura afetiva. O cinema de Trier é, acima de tudo, um cinema da composição: as emoções são arquitetônicas. De repente, a narrativa sofre um corte brusco, marca registrada da parceria Trier/Vogt, e somos transportados para um universo estético completamente distinto: cenas de fuga, tensão e vulnerabilidade pertencentes ao novo filme que Gustav está rodando. Esse corte, que poderia soar dissonante, funciona como gesto emocional: ele não rompe a narrativa, rompe a segurança do espectador. O filme dentro do filme não é uma explicação; é uma extensão afetiva do universo interior do cineasta. Quando uma lágrima escorre no rosto da menina que se refugia no trem, entendemos que aquele mundo ficcional carrega, de alguma forma, a mesma dor que atravessa sua vida real. A seguir, Trier nos leva a Deauville, onde Gustav caminha sozinho pela icônica Promenade des Planches, ladeado por cercas de madeira que homenageiam nomes lendários do cinema americano. Kim Novak, Robert Duvall, Claudette Colbert, todos gravados na madeira como monumentos silenciosos de um cinema que ele venerou e talvez nunca tenha alcançado. A cena é de uma melancolia silenciosa. O cineasta lê os nomes com entusiasmo performático, mas seu corpo denuncia uma exaustão profunda, um desalento. É a imagem de um homem deslocado do próprio tempo, tentando reencontrar relevância num mundo que se move rápido demais para ele. A mise-en-scène o coloca entre ícones, mas o deixa pequeno, apagado, vulnerável. É então que Rachel, interpretada com brilho, luz e generosidade por Elle Fanning, entra na narrativa. Sua presença altera a atmosfera estética: o mar ao fundo, o céu claro, a leveza do vento. Tudo parece respirar quando ela aparece. Para Gustav, Rachel encarna uma promessa: a possibilidade de renascimento criativo, o sopro de juventude que reacende seu entusiasmo. Mas é um entusiasmo frágil, quase ilusório, sustentado mais pela projeção emocional do que por algo concreto. Ainda assim, é real, e essa ambiguidade é uma das maiores qualidades do filme. Outro corte abrupto nos leva para um dos momentos mais íntimos de Sentimental Value: cinco minutos observando Nora, sem diálogos, sem explicações, apenas acompanhando o fluxo de sua vida interior. Sorrisos breves, pensamentos dispersos, tensão, lágrimas contidas, nostalgia repentina, uma paleta completa de emoções humanas. Renate Reinsve faz aqui uma atuação monumental, construída a partir de microexpressões. Nora carrega uma sensibilidade extrema, instabilidade emocional, tristeza profunda e uma força silenciosa. Esse pequeno bloco narrativo é quase um curta-metragem dentro do filme, revelando que a personagem não se explica: ela existe. A casa da mãe falecida surge então como um personagem independente, talvez o mais importante do filme. Um espaço carregado de memórias, objetos guardados, roupas antigas, luz natural atravessando poeira suspensa. É um lugar que pulsa ausência. Cada caixa retirada, cada cômodo visitado, cada objeto tocado reativa camadas de afeto e dor. A casa funciona como centro de inércia emocional da família: não importa o quanto tentem seguir adiante, todos são atraídos de volta àquele espaço. Ali, Nora reencontra o roteiro entregue pelo pai no inicio do filme, e o que antes era proposta, agora se torna fantasma. É a casa, em sua arquitetura afetiva, que obriga a personagem a confrontar memórias que preferiria evitar. Quando Gustav apresenta Rachel ao local de filmagem, ele oferece uma das cenas mais bonitas do filme: uma aula espontânea sobre cinema. Ele explica como o enquadramento determina sentimento, como a luz cria atmosfera, como o gesto do ator nasce do espaço. Mas é mais que técnica: é confissão. Ao descrever como se constrói um plano, Gustav descreve sua própria forma de sentir o mundo. E logo Trier quebra essa delicadeza com outro corte abrupto, mostrando fragmentos não cronológicos da vida de Gustav, ou talvez da própria casa. A montagem abandona a linearidade e abraça a lógica da memória, onde lembranças surgem em lampejos, borrões, associações espontâneas. O humor surge como contraponto à melancolia, sempre elegante e crítico. Rachel se apega emocionalmente a um banquinho comum, acreditando que ele possui significado profundo, um comentário irônico sobre a ansiedade de artistas em buscar autenticidade. Gustav enfrenta o mundo dos streamings com inocência quase infantil, revelando sua inadequação geracional. Há críticas sutis ao uso compulsivo de telas, tanto por crianças quanto por adultos, e cenas ternas e constrangedoras envolvendo presentes que Gustav dá ao neto. O humor, no cinema de Trier, nunca serve para aliviar a dor: ele serve para revelá-la. É então que o filme se torna estudo sobre afetos. Sobre a força de continuar apesar da culpa, da solidão, das instabilidades internas e do peso da memória. Cada personagem luta para seguir, mesmo sabendo que a vida não oferece garantias. A arte, cinema, teatro, imaginação, lembrança, torna-se instrumento de sobrevivência emocional. A melancolia do mundo real alimenta a criação; a criação, por sua vez, devolve algum sentido à melancolia. A dor gera arte, a arte reorganiza a dor, e esse ciclo define a existência dos personagens. O título Sentimental Value nunca foi tão preciso. Ele não se refere a valor estético ou monetário, mas ao valor emocional que algo ou alguém ganha simplesmente por ter existido em nossa vida. Objetos, casas, fotografias, roteiros, gestos e até sombras do passado carregam sentido porque foram vividos. O filme lembra que somos constituídos por memórias, pelas que abraçamos e pelas que tentamos negar, e que elas, inevitavelmente, moldam nossa identidade. O valor sentimental é o peso invisível que nos acompanha; o que nos fere e o que nos sustenta. No núcleo de tudo, Sentimental Value é sobre a beleza ferida da vida. Sobre a ternura escondida nas rachaduras, sobre o afeto contido, sobre o desencanto que convive com a esperança, sobre a nostalgia que funciona como anestesia e como punhal. É sobre a melancolia que nunca se dissolve completamente. É sobre reconhecer que a vida não é linear, nem coerente, nem perfeitamente compreensível. Ela é triste, bonita, confusa, poética, caótica e profundamente verdadeira. Trier parece nos olhar e dizer: “A vida não é um problema a ser resolvido. É uma emoção a ser atravessada.” E talvez seja essa, afinal, a grandeza de Sentimental Value: ele não tenta imitar a vida. Ele é vida.