Críticas

Sirāt (2025)

Direção: Oliver Laxe

Sirāt (2025)
Sabe quando alguns filmes não se preocupam em dar respostas fáceis? Eles nos colocam diante de personagens comuns, cheios de falhas e esperanças, e nos deixam acompanhar sua caminhada. Sirât é assim. O que começa como uma busca simples, um pai e um filho tentando encontrar alguém, se transforma numa travessia maior, onde o que importa já não é a chegada, mas a maneira como cada um resiste ao caminho. O deserto marroquino é mais do que cenário. Ele é o espaço que testa cada personagem, que revela a essência de todos. Um lugar vasto, silencioso, que não oferece garantias. Atravessá-lo significa descobrir quem você é quando não sobra nada além de você mesmo. Em Sirât, o som funciona como linguagem narrativa porque ele conduz cenas inteiras sem depender da imagem ou do diálogo. Há momentos em que a música da rave é ouvida antes de qualquer explicação visual, orientando o espectador espacialmente muito antes de entendermos onde estamos. Em outras cenas, o som continua mesmo quando os personagens se afastam fisicamente da festa, criando uma sensação clara de permanência e deslocamento. A mixagem altera a percepção de distância: sons que deveriam estar longe soam próximos, enquanto ações visíveis acontecem quase em silêncio. O filme utiliza longos trechos sem diálogo, nos quais apenas vento, passos, batidas graves ou ruídos ambientes sustentam a cena e determinam o ritmo da montagem. Há ainda o uso do fora de campo sonoro como motor dramático, quando personagens reagem ao que escutam antes mesmo de vermos qualquer acontecimento. Dessa forma, o som não acompanha a narrativa, ele a constrói, organizando espaço, tempo e tensão. Luis, o pai, é um homem quebrado pela melancolia, mas que insiste em seguir. Ele anda porque não sabe parar, porque no fundo sente que parar seria desistir de tudo. Há algo de profundamente humano em sua obstinação: mesmo sem respostas, ele continua. Esteban, o filho, encara esse mesmo caminho de outra forma. É mais frágil, mais exposto, como todo jovem que ainda não aprendeu a suportar o peso das ausências. Ele simboliza a inocência diante de um mundo que não se explica. Stef sobrevive com simplicidade. Não é heroína, não é mártir. Ela resiste porque se adapta, porque entende que a vida, às vezes, é só isso: dar o próximo passo. Josh, por outro lado, é silêncio. Misterioso, reservado, carrega em si algo que nunca se revela. É como se representasse todos aqueles lados de nós que não conseguimos explicar, mas que mesmo assim nos acompanham. Jade é vitalidade pura. Ela dança contra o vazio, mostra que ainda é possível acreditar no instante, mesmo quando tudo parece ruir. Tonin, ao seu lado, é bondade em estado bruto. É o amigo que estende a mão, mesmo sabendo que isso pode não bastar. E Bigui, mais discreto, mais anônimo, nos lembra que há muitas vidas que se perdem sem nome, mas que também fazem parte da travessia. Cada um deles é uma metáfora de como lidamos com o absurdo da existência: Luis com sua persistência; Esteban com sua vulnerabilidade; Stef com sua adaptação silenciosa; Josh com seu mistério; Jade com sua energia; Tonin com sua solidariedade e Bigui com sua presença. Todos orbitam o mesmo deserto, todos respondem a ele de formas diferentes, todos revelam algo sobre nós mesmos. Sirât é um filme sobre continuar. Sobre o que sobra de nós quando as respostas não vêm. Ele termina com imagens que insistem em permanecer: pessoas caminhando, trilhos que desaparecem na areia, passos que se perdem no horizonte. É nessa insistência que está a beleza do filme: na lembrança de que viver é atravessar, mesmo quando não sabemos se haverá chegada.