Pecadores (2025)
Direção: Ryan Coogler.

⚠️ ATENÇÃO: A crítica a seguir discute acontecimentos e desfechos da trama sem restrições.
Pecadores nunca foi sobre vampiros, embora vampiros caminhem pela narrativa, seduzam, cantem, manipulem, transformem e matem, porque essas criaturas funcionam apenas como uma linguagem simbólica escolhida para falar sobre algo muito mais antigo, mais doloroso e mais estrutural, já que o filme constrói uma história sobre memória cultural, apagamento histórico, apropriação artística, espiritualidade roubada, segregação racial e a maneira como a arte se torna o último território possível de existência quando todas as outras formas de pertencimento são negadas, e essa ideia começa a se manifestar desde a primeira imagem em que Samuel chega à igreja completamente destruído física e espiritualmente, parando na porta e recusando atravessar aquele espaço, gesto aparentemente simples que carrega uma camada simbólica profunda, pois no imaginário clássico do terror vampiros só entram quando são convidados, e o filme, sem precisar explicar, deixa pairar a dúvida se Samuel não está apenas hesitando diante da igreja, mas diante da própria identidade, como alguém que já foi marcado por uma experiência que o impede de retornar ao mundo anterior, e quando ele finalmente entra, encontra o pai, pastor, exigindo que ele abandone a música e se dedique exclusivamente à fé, momento em que os flashes da noite anterior começam a invadir sua mente, e esses flashes não funcionam apenas como trauma psicológico, mas como conflito espiritual, já que ao olhar para os fiéis Samuel vê imagens dos seguidores do vampiro, criando um espelho perturbador entre religião e dominação, porque tanto o pai quanto o vampiro desejam possuir Samuel, um para salvar sua alma, outro para absorver sua essência, e nenhum dos dois aceita a possibilidade de que ele construa sua própria identidade fora dessas estruturas de poder.
O filme então retorna ao dia anterior e apresenta os gêmeos Fuligem e Fumaça, personagens que carregam no próprio nome uma herança simbólica da tradição do blues, evocando diretamente a atmosfera da música Smokestack Lightning, clássico associado à solidão, deslocamento e dor emocional, estabelecendo desde o início que música e identidade não são elementos decorativos, mas estruturas narrativas fundamentais, e esses irmãos surgem como homens que roubaram seus próprios chefes mafiosos em Chicago tentando reconstruir a vida ao abrir um clube na cidade natal, comprando uma velha serraria sem documentação, detalhe que parece apenas dramático, mas representa uma verdade histórica brutal, já que para pessoas negras naquele período qualquer conquista econômica era provisória e sempre ameaçada, e quando o antigo dono retorna perguntando se eles lavaram o chão, o filme revela que aquele espaço já havia sido palco de violência antes, reforçado pela presença dos abutres sobrevoando o local, sugerindo que a terra onde o clube nasce é uma terra marcada por sangue, memória e exploração.
Após assumirem o espaço, os irmãos vão buscar bebidas escondidas no mato, e dentro do caminhão surge uma cobra, símbolo clássico do mal e da tentação espiritual, e Fumaça atravessa o animal com violência num gesto que antecipa o confronto futuro com o vampiro mestre, enquanto o brilho do olhar da cobra reflete o brilho dos vampiros, sugerindo que o mal naquele universo não é apenas sobrenatural, mas histórico, estrutural e social, e tudo isso acontece durante o período da Lei Seca, quando a proibição do álcool fortaleceu o crime organizado e transformou cidades como Chicago em centros de poder mafioso, contexto que sugere uma possível ligação indireta com figuras históricas como Al Capone, e o filme usa esse pano de fundo para discutir como muitos soldados negros que voltaram da Primeira Guerra Mundial, treinados e disciplinados, encontraram um país que continuava negando oportunidades, sendo frequentemente recrutados por gangues como força militar clandestina, criando uma geração de homens treinados para a guerra, mas abandonados pela nação que disseram defender.
Quando Fumaça vai ao centro procurar alguém para fazer o letreiro do clube, o filme apresenta uma das cenas mais silenciosamente devastadoras sobre segregação racial, onde uma menina chinesa atravessa a rua para chamar a mãe que trabalha em uma loja praticamente idêntica à do outro lado, vendendo os mesmos produtos, mas separadas por fronteiras raciais invisíveis, e essa travessia aparentemente simples revela que o racismo estrutural norte-americano não funcionava apenas como divisão entre brancos e negros, mas como uma hierarquia complexa onde comunidades asiáticas ocupavam uma posição intermediária, sendo discriminadas e exploradas, mas às vezes autorizadas a circular entre espaços inacessíveis para pessoas negras, e o filme transforma esse gesto cotidiano em comentário visual sobre colonialismo, capitalismo racial e exclusão social, reforçando que diferentes diásporas carregam histórias de exploração que se cruzam, ainda que não sejam idênticas.
Mesmo quando personagens negros conseguem prosperar economicamente, a perseguição racial permanece constante, evidenciada por restaurantes exclusivos para brancos, bilheterias segregadas e espaços públicos organizados para reforçar a exclusão, e o filme não precisa explicar nada disso, apenas mostrar, transformando o cotidiano em terror silencioso que se torna tão assustador quanto qualquer criatura sobrenatural, e é nesse ambiente que o blues começa a surgir como força cultural e espiritual, representado pelo violão associado a Samuel e que remete diretamente à tradição iniciada por Charlie Patton, frequentemente considerado o pai do Delta Blues, cuja herança cultural mistura raízes afro-americanas, Choctaw e possivelmente irlandesas, refletindo o mosaico cultural que o filme constrói, enquanto o Delta Blues aparece não apenas como gênero musical, mas como território espiritual que moldou praticamente toda a música popular norte-americana posterior.
O filme então mergulha na cena do juke joint, onde ocorre o momento central da obra, e nesse espaço quente, apertado e vivo, Sammie canta um blues que não parece performance, mas confissão, cantando como quem sangra pela boca enquanto o espaço começa a se transformar, o tempo se afrouxa e a cena deixa de ser narrativa para se tornar experiência sensorial, e ali o blues surge como sobrevivência, linguagem criada quando não restava mais nada além da voz, nascida da escravidão, do trabalho forçado e da humilhação cotidiana, e o juke joint existe como território temporário de liberdade, espaço onde o corpo negro pode existir sem a vigilância constante do mundo externo.
Quando a guitarra elétrica entra, o filme corrige a história oficial ao mostrar que o rock nasceu ali, nas mãos negras, muito antes de ser embranquecido pela indústria musical, e a presença do DJ reorganizando sons reforça a tradição cultural negra de remixar o mundo quando tudo foi roubado, transformando o DJ em um griot moderno que guarda histórias através da música, enquanto os corpos dançam freestyle, improvisando liberdade crua, respondendo ao som como resposta à violência histórica, e a música cresce incorporando rap, tambor africano e funk, mostrando que o tambor, que já foi proibido por comunicar demais entre comunidades escravizadas, retorna como instrumento de poder cultural.
As figuras religiosas africanas surgem como fantasmas ancestrais que sobreviveram ao apagamento espiritual imposto pela escravidão, enquanto o balé surge executado por um corpo branco dentro daquele espaço negro, criando uma fricção histórica que revela como a arte europeia sempre teve acesso institucional enquanto a arte negra precisava sobreviver na improvisação, mostrando que o problema histórico nunca foi capacidade artística, mas acesso, e a presença da cultura chinesa reforça que o colonialismo organizou o mundo explorando múltiplos corpos racializados, enquanto o fogo surge como aviso de que o passado continua presente e que a neutralidade diante dessa história é uma escolha política.
A partir desse momento, o filme revela a complexidade do antagonista, um vampiro irlandês que usa a própria história de opressão para seduzir suas vítimas, afirmando que seu povo teve terras roubadas e identidade apagada, oferecendo o vampirismo como promessa de reencontro espiritual e igualdade coletiva, mas exigindo a perda da identidade individual, enquanto toca blues e utiliza o banjo, instrumento nascido da adaptação de instrumentos africanos, simbolizando trocas culturais que podem gerar beleza e apagamento simultaneamente, transformando os vampiros em metáfora da apropriação cultural que absorve arte negra enquanto promete pertencimento.
O filme também constrói uma rede de referências culturais, evocando a lenda de Robert Johnson e o mito do pacto com o diabo, sugerindo como o talento negro frequentemente foi transformado em narrativa sobrenatural para diminuir seu valor artístico, enquanto o nome do protagonista ecoa Sam Moore e a personagem Clarine remete à tradição musical de Son House, reforçando que o filme funciona como arquivo cultural vivo que dialoga com figuras históricas do blues e da música popular, além de evocar o contexto do crime organizado e a ascensão mafiosa durante a Lei Seca, sugerindo a ligação indireta com o universo de Al Capone e com as estruturas de poder que exploraram trabalhadores negros naquele período.
A presença da Ku Klux Klan surge como símbolo da continuidade estrutural do racismo, enquanto a narrativa dialoga com a história do cinema ao transformar um drama criminal em terror sobrenatural, evocando tradições narrativas clássicas e utilizando enquadramentos que lembram técnicas consagradas de construção de tensão psicológica, enquanto o antagonista carrega elementos simbólicos inspirados em representações modernas da morte como figura sedutora e inevitável.
Quando Mary tenta expandir economicamente o clube, revela a limitação econômica das comunidades negras, desencadeando tragédias quando ela é atacada e transformada, enquanto o retorno de Brod Milho transformado remete ao personagem Jim Crow, figura criada por um ator branco do século XIX que utilizava blackface para ridicularizar negros e que posteriormente daria nome às leis de segregação racial, e a invasão do clube pelos vampiros ecoa estruturas narrativas onde histórias criminais se transformam abruptamente em terror dentro de espaços musicais.
Durante o confronto final, a trilha sonora mergulha no heavy metal, gênero que nasceu do blues mas foi historicamente associado a bandas brancas, reforçado pela participação do baterista do Metallica na trilha sonora, enquanto o violão se transforma em arma nas mãos de Samuel, simbolizando que a música sempre foi instrumento de resistência cultural, e quando o sol nasce e os vampiros queimam, o vampiro mestre é engolido por um redemoinho de fogo que dialoga com narrativas espirituais e bíblicas sobre transcendência e julgamento.
Fumaça então enfrenta sozinho a Ku Klux Klan carregando a placa militar do irmão, entrando na batalha como se lutasse ao lado dele mais uma vez, criando uma catarse simbólica que a história real raramente permitiu, e no plano espiritual ele reencontra a esposa e a filha, recusando o dinheiro oferecido pelo homem branco e escolhendo aquilo que realmente define sua identidade.
A narrativa retorna ao momento inicial, quando Samuel recebe o ultimato do pai para abandonar a música e viver apenas para a igreja, e ele escolhe o blues, talvez influenciado pelo passado, talvez pela dor coletiva, talvez pela necessidade de preservar uma cultura que sempre tentaram apagar, e então o filme salta para 1992, onde Samuel aparece como músico consagrado interpretado por Buddy Guy, figura lendária do blues cuja presença simboliza a sobrevivência histórica do gênero, transformando o personagem em continuidade cultural viva.
Mary e Fuligem reaparecem livres, pedindo que Samuel toque apenas para lembrar o passado, encerrando o arco dos irmãos ao lado das mulheres que amaram, mostrando que a história deles termina não na violência, mas no reencontro emocional, e é nesse momento que surge o detalhe visual mais poderoso da obra, quando Samuel, Mary e Fuligem aparecem diante de um espelho que reflete apenas o garçom, sugerindo que eles não existem mais dentro da história oficial, funcionando como memória cultural, herança espiritual e lenda viva, enquanto o garçom representa a continuidade visível da sociedade institucionalizada, revelando quem a história escolheu lembrar e quem tentou apagar.
O filme encerra sugerindo que histórias podem ser apagadas, distorcidas ou transformadas em lenda, mas a cultura sobrevive, a música sobrevive, a memória sobrevive, e enquanto alguém ainda estiver disposto a tocar, cantar, dançar ou contar histórias, aquilo que tentaram apagar continuará voltando, porque Pecadores não é apenas um filme sobre monstros, mas sobre como a arte transforma dor em permanência, trauma em linguagem e silêncio em resistência coletiva.
