Críticas

Michael (2026)

Direção: Antoine Fuqua

Michael (2026)
O ESPLENDOR DA FORMA E O VAZIO DO CONTEÚDO Há cinebiografias que chegam ao cinema carregando um problema anterior ao próprio filme: a impossibilidade de separar o homem do monumento. No caso de Michael, essa dificuldade não é apenas estética, mas estrutural, quase ontológica. Porque Michael Jackson não foi apenas um artista, nem apenas um produto da indústria cultural, mas uma entidade híbrida, construída no cruzamento entre genialidade, exploração, trauma, espetáculo e invenção de si mesmo. Ele é, ao mesmo tempo, uma das figuras mais reconhecíveis da história e uma das menos compreendidas. E talvez seja justamente essa contradição que o filme evita encarar de frente. O personagem que surge em cena raramente se desprende de uma camada única. Há um esforço constante em reafirmar sua genialidade, sua importância histórica, sua dimensão icônica, mas esse esforço funciona mais como blindagem do que como investigação. Michael aparece como ideia estabilizada, como conceito pronto, e não como um corpo em conflito. Falta-lhe fricção interna. Falta-lhe o atrito entre desejo e impossibilidade, entre construção e colapso, entre aquilo que ele performava e aquilo que, talvez, não conseguia sustentar fora do palco. E quando um personagem não se contradiz de forma viva, ele deixa de ser dramático e passa a ser apenas representativo. Essa simplificação é especialmente problemática porque a trajetória de Michael Jackson é marcada por rupturas, por transformações que não obedecem a uma lógica linear. Ele não é apenas um arco de ascensão e queda. Ele é uma sucessão de reinvenções, muitas delas dolorosas, muitas delas incompletas. Reduzir isso a uma progressão previsível é domesticar o que há de mais instável em sua história. O menino prodígio, o astro global, o ícone absoluto. Tudo parece organizado como etapas inevitáveis, quando, na realidade, cada uma dessas fases carrega tensões que o filme raramente se dispõe a explorar com profundidade. Para sustentar essa construção simplificada, a encenação frequentemente recorre ao excesso. Tudo parece elevado, tudo parece carregado de importância. A câmera insiste, a trilha sublinha, os enquadramentos procuram constantemente transformar cada momento em acontecimento histórico. Mas essa insistência revela uma falta de confiança. Um filme que realmente entende a potência do seu material não precisa transformá-lo em monumento a cada cena. Ele precisa, antes, permitir que o material respire, que os momentos se organizem em diferentes intensidades, que o silêncio tenha peso. Sem essa variação, o filme se torna ruidoso. Não há contraste entre o íntimo e o público, entre o banal e o extraordinário. Tudo é tratado como ápice, e quando tudo é ápice, nada se sustenta como tal. O espectador é conduzido por uma sequência de momentos que deveriam impactar, mas que, pela repetição de tom, acabam se nivelando. O extraordinário perde sua força porque não há terreno para sustentá-lo. Essa lógica se estende à própria estrutura narrativa, que assume um caráter acumulativo. O filme parece movido pelo medo de omitir, como se a função da cinebiografia fosse registrar tudo. Cada fase precisa aparecer, cada evento precisa ser mencionado, cada transformação precisa ser mostrada. O resultado é uma narrativa que percorre muito, mas permanece pouco. A vida é apresentada como uma sequência de acontecimentos, e não como um processo vivido. Há aqui um equívoco comum: confundir abrangência com profundidade. Mostrar muitos eventos não significa compreender uma trajetória. Muitas vezes, é justamente o recorte que permite o mergulho. Ao tentar dar conta de tudo, o filme abre mão daquilo que poderia torná-lo singular: a capacidade de escolher um ponto de vista, de se comprometer com um eixo, de investigar com rigor um conjunto de tensões específicas. Essa ausência de foco se conecta diretamente à falta de um estudo mais consistente de personagem. O filme mostra o que aconteceu, mas raramente investiga por que aconteceu, como foi internalizado, o que foi silenciado, o que se repetiu. Michael aparece frequentemente de fora para dentro. Observamos seus gestos, suas performances, seus conflitos visíveis, mas pouco acessamos o que se organiza internamente. O cinema, nesse caso, se contenta com a superfície do comportamento, quando deveria buscar a complexidade da experiência. Essa fragilidade se estende aos personagens que orbitam sua vida. Figuras que deveriam ter densidade própria surgem como funções. O segurança, John Branca e outros nomes do entorno aparecem mais como engrenagens narrativas do que como indivíduos atravessados por conflitos. E isso tem um efeito direto sobre o protagonista: quando o mundo ao redor é raso, o centro também se empobrece. A representação de Joe Jackson é particularmente reveladora. Ao optar por uma construção próxima da caricatura, o filme transforma uma relação complexa em uma oposição simplificada. O pai surge como figura quase absoluta de antagonismo, como se sua função fosse apenas representar a opressão. Mas a realidade é mais incômoda. A violência, o controle, a exploração existem, mas estão inseridos em uma rede mais ampla de tensões familiares, sociais e econômicas. Ignorar isso não é proteger o personagem, é empobrecer o conflito. A caricatura, nesse contexto, funciona como atalho. Ela elimina a necessidade de aprofundamento, substitui ambiguidade por identificação imediata. O espectador entende rapidamente quem é “bom” e quem é “mau”, mas deixa de ser provocado. E sem provocação, o cinema perde potência. Outro vazio decisivo está na ausência do processo criativo. Em uma obra sobre Michael Jackson, a criação não poderia ser tratada como consequência. Ela é o núcleo. A música não é apenas resultado, é construção. É repetição, erro, insistência, descoberta. É corpo em movimento, é ouvido em tensão, é obsessão por detalhe. Quando o filme não mostra isso, ele transforma a arte em produto acabado, como se ela simplesmente surgisse. Essa ausência é ainda mais evidente na forma como a relação com Quincy Jones é tratada. Sua presença reduzida compromete não apenas a fidelidade histórica, mas a própria estrutura dramática. Quincy representa diálogo, contraponto, limite, construção coletiva. Sem ele, o filme reforça a ideia de um gênio isolado, autossuficiente, quase místico. Essa ideia é sedutora, mas não sustenta uma análise mais séria do processo artístico.A criação, quando isolada, perde sua dimensão de conflito. E sem conflito, volta-se ao problema central: a ausência de tensão interna. O filme mostra o brilho, mas não mostra o atrito que o produz. Os diálogos contribuem para essa simplificação. Frequentemente expositivos, eles explicam em vez de sugerir. Personagens dizem o que sentem, verbalizam suas motivações, organizam suas experiências em frases claras. O subtexto desaparece, e com ele desaparece a possibilidade de leitura mais complexa. Tudo é entregue, pouco é construído. Esse excesso de explicação aproxima o filme de um tom novelesco, onde o conflito precisa ser verbalizado para existir. Mas a figura de Michael pede o oposto. Pede silêncio, pede contradição, pede espaço para que o espectador perceba aquilo que não é dito. A distribuição de tempo também revela uma dificuldade de hierarquia. Certas cenas, especialmente momentos de alívio cômico ou episódios excêntricos, recebem uma atenção desproporcional. Situações "engraçadas" e elementos periféricos ocupam espaço que poderia ser dedicado à investigação mais profunda do personagem. O problema não está na presença desses momentos, mas no peso que assumem dentro do conjunto. Isso cria uma sensação de desorientação. O filme parece fascinado pelo folclore em torno de Michael, mas menos interessado em compreender sua estrutura interna. O curioso se sobrepõe ao essencial. A cena do cabelo pegando fogo, por exemplo, poderia ser tratada como ruptura física e simbólica, como momento em que o corpo do artista revela o custo do espetáculo. Mas quando inserida sem o devido aprofundamento, ela se torna mais um episódio reconhecível do que uma experiência transformadora. O desfecho sintetiza essa lógica. Ao apostar em uma longa sequência de show como resolução emocional, o filme se aproxima de um modelo já consagrado por Bohemian Rhapsody. A emoção existe, mas ela é, em grande parte, importada. Vem da música, da memória coletiva, da imagem consolidada do artista. Não é necessariamente construída pela narrativa. O espetáculo substitui a resolução. O mito substitui o homem. Ainda assim, há momentos em que o filme se aproxima de algo mais verdadeiro. A atuação de Juliano Krue Valdi como Michael criança traz uma humanidade rara. Há ali fragilidade, presença, um olhar que comunica sem precisar explicar. É quando o filme se aproxima da infância que ele encontra mais verdade, como se ali ainda fosse possível acessar o indivíduo antes de sua completa transformação em símbolo. A direção de arte demonstra cuidado na construção de ambientes e atmosferas. O figurino compreende a importância da imagem na narrativa de Michael. Esses elementos mostram competência técnica, um entendimento visual consistente do universo retratado. Mas esses acertos não sustentam o conjunto. No fim, o que permanece é uma sensação de descompasso. Um filme que parece grande, mas não é profundo. Que parece completo, mas não é revelador. Que parece definitivo, mas interrompe justamente quando poderia começar a se tornar realmente interessante. Ao encerrar sua trajetória no momento em que o artista se aproxima da era que culminaria em Bad, o filme não apenas adia sua complexidade como também revela uma dependência estrutural de continuidade. O anúncio de uma segunda parte funciona menos como expansão narrativa e mais como evidência de que aquilo que deveria ser aprofundado foi postergado. Em vez de enfrentar o período mais denso, controverso e artisticamente desafiador da vida de Michael Jackson, a obra escolhe interromper seu percurso num ponto relativamente mais seguro. E assim, o que poderia ser um mergulho em uma das figuras mais complexas da cultura contemporânea se transforma, por enquanto, em uma preparação longa demais para um filme que ainda não aconteceu.