Críticas

Juntos (2025)

Direção: Michael Shanks

Juntos (2025)
O cinema sempre buscou metáforas para traduzir o amor: já foi a brisa leve de um encontro proibido, já foi o fogo devorador de paixões impossíveis, já foi o silêncio das mãos que não se tocam. Em Juntos, de Michael Shanks, essa busca ganha um caminho inusitado e inquietante. Aqui, amar não é apenas metáfora, mas matéria. A intimidade deixa de ser sugestão poética e se transforma em carne, em corpo, em algo que pode ser visto e sentido de maneira grotesca, mas também profundamente simbólica. O casal interpretado por Alison Brie e Dave Franco sustenta a obra com uma química que transita entre ternura e desconforto. Há humor nervoso, há silêncios que pesam, há uma tensão contínua que reflete um dilema universal: como permanecer junto sem perder-se? A história se constrói justamente nesse espaço frágil entre o desejo de fusão e o medo da anulação. Juntos é menos um filme de monstros e mais um estudo sobre a intimidade. O horror está ali, claro, mas não como espetáculo gratuito: ele serve de alegoria. O grotesco é apenas a superfície de um discurso mais profundo, que questiona a idealização do ser um só e o transforma em imagem concreta, quase insuportável. E nesse gesto o filme nos obriga a encarar a pergunta que evitamos em nossas próprias relações: até que ponto amar significa ceder e quando esse ceder já não é amor, mas dissolução? A trilha sonora, marcada por canções que carregam o romantismo açucarado da cultura pop, funciona como ironia cruel. Aquilo que embalou gerações com promessas de união e ternura se torna pano de fundo para uma experiência incômoda. O espectador é jogado nessa contradição: sentir ternura e, ao mesmo tempo, repulsa. Rir de nervoso e, no instante seguinte, se encolher na cadeira. O filme, é verdade, não é isento de falhas. Há momentos em que a repetição pesa, há pontos em que a mitologia parece mais rascunho do que construção. Mas sua força não está na lógica ou no detalhe narrativo. Ela está no impacto que gera, na sensação que se cola à pele do espectador depois da sessão. Juntos é, em última instância, um ensaio audiovisual sobre os limites do amor. Ele não responde se amar é unir ou separar, se é refúgio ou prisão. Apenas mostra com ironia, desconforto e poesia cruel que o verdadeiro horror talvez não esteja no corpo, mas no quanto de nós mesmos estamos dispostos a perder para não ficarmos sozinhos.