Homem Com H (2025)
Direção: Esmir Filho

Homenagens, em sua maioria, geralmente vêm depois da morte, como epitáfios tardios. Homem com H não é assim. É celebração em carne viva, é oferenda a um artista que respira conosco. Ney Matogrosso não é lembrado, é reavivado.
Aqui o corpo é palco, é arma, é altar.
O maneirismo da primeira metade faz a narrativa dançar. A edição é vertigem, não explica, mostra. E nesse mostrar entendemos tudo. O filme nos arremessa em épocas e gestos sem pedir licença. Ney surge múltiplo, bicho, homem, fênix.
Sim, a segunda metade tropeça na repetição, mas Ney é maior que qualquer cansaço. Sua vida é excesso, é rebento. Se o roteiro hesita, a figura permanece invicta, maior que o próprio filme.
E sobre as cenas, ah, as cenas. Há nelas uma beleza quase proibida, beirando o explícito. Não precisamos do frontal para sentir o cortejo da carne. Pela forma como foram gravadas, já basta. O erotismo vibra em silhuetas, em gestos, em corpos que se encontram. O filme não se esconde. Ele sugere e, na sugestão, atinge a intensidade do grito.
Jesuíta Barbosa não interpreta, incorpora. Há instantes em que o ator desaparece e diante de nós se ergue novamente o mito. Ney, o homem que desafiou ditaduras, que ousou amar quando amar era sentença, que atravessou a epidemia da AIDS sem se curvar.
O que vemos na tela é mais que cinebiografia, é rito. Ney não foi apenas cantor, foi acontecimento.
Homem com H é registro e celebração, não perfeito, mas necessário.
Porque não basta lembrar de artistas depois que se calam.
É preciso erguê-los em vida, como quem abre um pórtico e deixa passar um ícone.
Ney, homem com H, de História, de Heresia, de Humanidade.
