Do silenciamento à consagração
O Oscar mais brasileiro de todos os tempos.

Para compreender por que o Oscar de 2026 se tornou um marco histórico para o cinema brasileiro, é preciso olhar além da lista de indicados. O que está em jogo não é apenas a presença de filmes nacionais em categorias centrais, mas a convergência de trajetórias que, poucos anos atrás, foram sistematicamente hostilizadas pelo próprio Estado brasileiro. O reconhecimento atual não surge do acaso. Ele é resultado de um processo que atravessa conflito político, resistência artística e, por fim, reposicionamento internacional.
Esse percurso começa de forma clara em 2019, quando Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi excluído da escolha oficial do Brasil para o Oscar 2020. À época, o filme acabara de conquistar o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e era apontado por críticos internacionais como uma das obras mais relevantes do cinema mundial naquele ano. Ainda assim, a comissão brasileira optou por A Vida Invisível, de Karim Aïnouz.
Oficialmente, a decisão foi justificada por critérios estratégicos, como maior aderência ao perfil histórico da Academia de Hollywood e uma narrativa considerada mais “universal”. No entanto, o contexto político do período, já sob o governo de Jair Bolsonaro, tornou impossível dissociar a escolha de uma lógica ideológica. Bacurau era um filme abertamente político, alegórico, violento e crítico às estruturas de poder, temas que colidiam frontalmente com a narrativa institucional defendida pelo governo.
Nesse ambiente, Kleber Mendonça Filho passou a ser alvo recorrente de ataques públicos e tentativas de deslegitimação, frequentemente associados ao discurso contra as leis de incentivo à cultura. Não houve censura formal, mas consolidou-se um modelo de exclusão indireta, no qual o alinhamento ideológico passou a funcionar como critério implícito. O filme não foi proibido, mas foi deliberadamente afastado da vitrine internacional oficial do país.
Pouco depois, o mesmo padrão se repetiria com Marighella, dirigido por Wagner Moura. O longa enfrentou sucessivos entraves institucionais, atrasos na liberação por órgãos ligados ao Estado e dificuldades de distribuição. O retrato de Carlos Marighella, figura central da resistência à ditadura militar, transformou o filme em alvo de uma política de asfixia cultural. Novamente, não se tratou de censura explícita, mas de paralisação, desgaste e isolamento.
Esses episódios não foram exceções. Durante o governo Bolsonaro, o cinema brasileiro operou sob instabilidade permanente, marcada por cortes de verbas, paralisação de editais, ataques discursivos a artistas e desconfiança ideológica generalizada. O impacto foi direto: enfraquecimento das políticas públicas de cultura e redução da presença brasileira no circuito internacional.
É justamente esse histórico que torna o Oscar 2026 um ponto de inflexão.
No centro desse novo momento está Kleber Mendonça Filho, agora diretor de O Agente Secreto. Hoje, ele é o principal nome do cinema brasileiro em circulação internacional. Sua filmografia construiu uma reputação baseada em rigor formal, leitura política sofisticada e recusa sistemática ao exotismo. A presença de O Agente Secreto em categorias centrais do Oscar consolida uma carreira que já vinha sendo legitimada em Cannes, mas que agora atravessa definitivamente o eixo da indústria norte-americana.
Ao seu lado, Wagner Moura reaparece não mais como alvo de bloqueios, mas como protagonista reconhecido. Sua indicação como ator coloca o Brasil em um espaço raríssimo dentro da premiação. Embora Moura já tivesse projeção internacional, o reconhecimento agora vem por uma atuação profundamente enraizada no cinema político brasileiro, distante de estereótipos e de performances moldadas para exportação fácil.
Na estrutura coletiva do filme, destaca-se ainda o trabalho de Gabriel Domingues, indicado na nova categoria de direção de elenco da Academia. O reconhecimento evidencia uma dimensão frequentemente invisibilizada do cinema brasileiro no exterior: a capacidade de construir elencos densos, coerentes e organicamente ligados à realidade social retratada. A indicação sinaliza um cinema que pensa o personagem como estrutura narrativa, e não como ornamento.
No campo técnico, o alcance desse Oscar se amplia com a indicação de Adolpho Veloso, diretor de fotografia de Sonhos de Trem, em Melhor Fotografia. Trata-se da ruptura de uma barreira histórica. A validação do olhar brasileiro como linguagem cinematográfica de alto nível, capaz de dialogar com qualquer cinematografia do mundo sem abrir mão de identidade.
Esses nomes formam o eixo central do Oscar 2026 como o mais brasileiro da história. Direção, atuação, direção de elenco e fotografia estão representadas por profissionais que não surgiram de um acaso pontual, mas de uma trajetória coletiva de amadurecimento artístico e resistência política.
Mais do que presenças isoladas, eles indicam uma mudança estrutural. O Brasil deixa de depender de um único autor, de um único estilo ou de uma única narrativa para se afirmar internacionalmente. O que o Oscar 2026 revela é um cinema brasileiro sustentado por pessoas que dominam forma, conteúdo e pensamento cinematográfico. Historicamente, é isso que redefine o lugar de um país dentro da história do cinema.
