Críticas

A Empregada (2025)

Direção: Paul Feig

A Empregada (2025)
Logo em seus primeiros movimentos, A Empregada revela não ser um thriller psicológico, mas uma caricatura barulhenta do gênero. Sob a direção de Paul Feig e o roteiro de Rebecca Sonnenshine, o filme constrói uma narrativa sustentada por exageros dramáticos, erotização gratuita e conflitos artificiais que parecem existir apenas para provocar reações rápidas. A obra abandona qualquer tentativa de sutileza e transforma a tensão em um espetáculo inflado, criando a sensação perturbadora de que estamos diante de uma produção pensada para espectadores que não devem interpretar, apenas reagir. O resultado é um filme que não convida o público a mergulhar em ambiguidades emocionais, mas insiste em mastigar cada sentimento e repetir cada conflito até que qualquer possibilidade de inquietação psicológica seja completamente diluída. Desde seus primeiros movimentos narrativos, o filme demonstra uma desconfiança quase paranoica na inteligência do espectador. Nada pode ser sugerido. Nada pode ser deixado no silêncio. Tudo precisa ser escancarado, repetido e explicado com uma insistência quase ofensiva. A Empregada não constrói tensão, ele a empurra. Não desenvolve conflito, ele o mastiga até transformá-lo em uma sequência de estímulos óbvios e barulhentos. Assistir ao filme é experimentar uma sucessão de momentos de vergonha alheia, daqueles em que a narrativa parece acreditar que intensidade é sinônimo de exagero e que complexidade emocional pode ser substituída por reações histéricas e reviravoltas artificiais. O suspense psicológico, que deveria ser a espinha dorsal da obra, é constantemente sabotado por escolhas narrativas que transformam qualquer tentativa de profundidade em melodrama superficial. A direção de Paul Feig, que em outros trabalhos demonstrou domínio de ritmo e atmosfera, aqui parece completamente perdida, apostando em impacto imediato como se fosse a única linguagem possível. Já o roteiro de Rebecca Sonnenshine opera como uma engrenagem desesperada por choque narrativo, criando personagens que raramente parecem agir por motivação psicológica real. Eles agem porque o roteiro precisa que ajam. São peças mecânicas movidas por uma dramaturgia preguiçosa. Essa artificialidade atinge um dos seus pontos mais constrangedores na sequência de sedução entre os personagens interpretados por Sydney Sweeney e Brandon Sklenar. A cena surge abruptamente, sem progressão emocional, sem construção psicológica, como um botão narrativo sendo acionado para acelerar a trama. Sweeney tenta construir sua personagem através de vulnerabilidade e tensão contida, utilizando expressões sutis e corporalidade retraída. Sklenar aposta em um magnetismo sedutor com traços de ambiguidade moral. No entanto, a direção sufoca qualquer possibilidade de interpretação orgânica. O resultado é uma cena que parece coreografada por um roteiro ansioso, artificial e profundamente constrangedor. A narrativa sofre de um mal recorrente no cinema comercial contemporâneo, que é confundir intensidade com volume. Os conflitos surgem abruptamente, sem maturação emocional, e as reações dos personagens parecem moldadas mais para gerar impacto imediato do que para respeitar qualquer lógica psicológica convincente. Em vários momentos, os personagens deixam de parecer seres humanos complexos para se tornarem engrenagens de roteiro. Essa artificialidade se torna ainda mais evidente nas cenas envolvendo a personagem interpretada por Amanda Seyfried. A atriz tenta construir sua figura com uma instabilidade emocional calculada, alternando doçura e ameaça através de mudanças abruptas de comportamento. O problema é que essas mudanças não são construídas. Elas simplesmente acontecem, como se alguém tivesse trocado o interruptor emocional da personagem sem qualquer transição plausível. O que deveria gerar tensão psicológica se transforma em exagero performático digno de constrangimento dramático. O filme também demonstra uma obsessão quase desesperada pelo uso da sensualidade como ferramenta dramática. As cenas íntimas aparecem como atalhos narrativos, tentando substituir construção emocional por exposição física. O erotismo aqui não provoca, não inquieta e não aprofunda relações. Ele apenas ocupa espaço, funcionando como distração visual para mascarar a fragilidade estrutural do roteiro. A indecisão tonal do filme agrava ainda mais o desastre. Em certos momentos, a obra tenta parecer um estudo psicológico sofisticado. Em outros, mergulha em um suspense melodramático que beira o absurdo televisivo. Essa oscilação cria uma narrativa esquizofrênica, incapaz de sustentar identidade própria. O filme parece trocar de personalidade a cada ato, como se estivesse desesperadamente tentando descobrir o que quer ser, sem jamais conseguir. O clímax representa talvez o momento em que o filme abandona qualquer pretensão de verossimilhança. Confrontos e revelações são empilhados em uma avalanche de coincidências narrativas, decisões comportamentais absurdas e resoluções apressadas. O suspense psicológico se dissolve completamente, dando lugar a uma sequência que oscila entre o histérico e o risível. O que deveria ser explosão dramática se transforma em um espetáculo de exageros que provoca mais constrangimento do que tensão. Visualmente, o filme tenta sustentar uma atmosfera elegante e sedutora, mas essa estética funciona apenas como embalagem enganosa. A fotografia sugere sofisticação psicológica, mas o conteúdo raramente ultrapassa a superfície. Existe um verniz visual tentando esconder uma narrativa estruturalmente frágil e dramaticamente rasa. Talvez o aspecto mais irritante de A Empregada seja a sensação de arrogância narrativa. O filme parece acreditar que o público precisa ser conduzido de forma didática, como se qualquer espaço para interpretação fosse um risco comercial. Essa postura cria a impressão de uma obra que trata seu espectador como intelectualmente incapaz, transformando o cinema, que deveria provocar reflexão e desconforto, em um desfile de estímulos fáceis e emoções infladas. No fim, A Empregada se aproxima perigosamente daquilo que pode ser chamado de lixo narrativo com acabamento caro. É um filme que tenta parecer provocador, mas é apenas barulhento. Tenta parecer psicológico, mas é superficial. Tenta parecer intenso, mas é vazio. Ao optar pelo exagero constante, pelas atuações mecanizadas e pela dramaturgia caricata, o filme não apenas falha como thriller, mas se torna um exemplo claro de como o cinema pode se tornar ofensivo quando subestima o próprio público. O resultado é uma obra inflada, artificial e constrangedora, que deixa a sensação de que, por trás de toda sua aparência sofisticada, existe apenas uma narrativa preguiçosa tentando sobreviver à base de choque, erotização gratuita e dramatização exagerada. Um filme que não apenas decepciona, mas irrita profundamente por parecer acreditar que qualquer plateia aceitará ser tratada como espectadora passiva de um espetáculo dramaticamente raso.